Ouça aqui produção musical de Gabi Guedes
No endereço www.euterpediabrasil.com/profile/GabiGuedes há mais material sobre o percussionista.
Kátia Borges
Decidido a fugir da caretice da TV aberta e dos Marcelo Dourado da vida? Aposte em United States of Tara, em exibição no Brasil no canal Fox, toda segunda, 22h. Algumas referências reforçam o convite. O projeto é de Steven Spielberg. O roteiro, de Diablo Cody, de Juno. A produção, do Showtime, leia-se Dexter (Fox), The L Word (Warner) e Weeds (GNT). Mas o melhor motivo para ver The US of Tara é mesmo Toni Collete (O Sexto Sentido, Pequena Miss Sunshine), que acaba de ganhar o Globo de Ouro pela interpretação da artista plástica com transtorno dissociativo de identidade. O nome identifica uma doença em que a pessoa manifesta características de duas ou mais identidades. E é assim que a quarentona Tara, ao menor sinal de estresse, pode virar T, uma adolescente maconheira, ou Alice, uma dona de casa caretona, ou Buck, um militar machista e violento, capaz de brigar com o namorado da filha aos socos. Junte a isso um marido paciente que dói e um filho meio gay. Só uma curiosidade: em Portugal, o título virou “As taras de Tara”.
United States of Tara | Segundas, às 22 horas, no canal Fox, com reprises nas terças-feiras, às 4h | Veja prévia da primeira temporada
O libanês Benjamin Abrahão ganhou o consentimento de Lampião para acompanhar o grupo e fazer um filme sobre o cangaço. Antes do primeiro take, Abrahão teve que ficar em frente à câmera para provar de que não se tratava de uma armadilha, como informou o Diário de Pernambuco (leia matéria abaixo).
O filme foi exibido uma única vez, em 1938. Logo depois, o material foi apreendido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), do governo Vargas, e só foi redescoberto em 1957, quando só restavam dele alguns minutos. Confira:
***
Em 28 de julho de 2008, o Diário de Pernambuco publicou uma reportagem especial sobre o Cangaço e sobre o filme de Abrahão:
O libanês que domou Lampião
Quarenta e duas facadas decretaram o final, no dia 9 de maio de 1938, da cinematográfica vida do libanês nascido no lugarejo chamado Zahelh e que deixou o seu país natal durante a I Guerra Mundial. Benjamin Abrahão Botto veio parar no Brasil, mais precisamente em Pernambuco, muito longe dos Estados Unidos que seria o destino preferencial na sua rota de fuga. Ele estabeleceu-se no Recife como mascate, vendendo inicialmente tecidos. Depois, ampliou suas ofertas para produtos vindos do Sertão, como rapadura, farinha e carne-de-sol.
No início dos anos 20, empreendeu sua primeira aventura pelo interior, chegando até Juazeiro do Norte, no Ceará, onde se tornou secretário particular do Padre Cícero, considerado “santo” pelos romeiros que afluíam de todos os lugares do Nordeste. O médico e historiador Napoleão Tavares Neves ressalta que Abrahão ganhou a simpatia do religioso com uma mentira. Ao ver aquele homem diferente no meio da multidão, Padre Cícero, beirando os 80 anos de idade, teria se emocionado ao saber queo estrangeiro de fala enrolada nascera em Belém, na Palestina, o lugar de nascimento de Jesus Cristo.
Foi ao lado do Padre Cícero que Benjamin Abrahão conheceu, no início de março de 1926, o homem que mudaria o seu destino. Lampião, o rei dos cangaceiros, tinha ido a Juazeiro do Norte para receber uma patente de Capitão e depois lutar contra a Coluna Prestes. Os caminhos do libanês e do pernambucano de Serra Talhada se cruzariam novamente em 1936, quando Benjamin Abrahão, com uma carta de apresentação do Padre Cícero (falecido dois anos antes) e equipamentos obtidos na Aba Film, sediada em Fortaleza, parte em busca do bandido mais famoso do Nordeste com um objetivo: registrá-lo em celulóide.
O capitão Virgulino Ferreira é ignorante, mas inteligência não lhe falta
Armado com uma câmera de corda Nizo Kiamo, de 35 milímetros e lente Zeiss, cinco rolos de filme e mais uma câmera fotográfica Interview Établissements André Debrie, o libanês seguiu o rastro do bando de Lampião. Graças aos contatos do coronel Audálio Tenório, chefe político de Águas Belas, ele obteve a permissão de se aproximar dos cangaceiros na Fazenda Bom Nome, em Alagoas. Desconfiado, Lampião ordena que Abrahão fique na frente do equipamento para o primeiro take, para se certificar de que não era uma armadilha.
Com todos os filmes recheados de cenas do bando, Abrahão parte para Fortaleza. Depois de revelado, o material entusiasma Adhemar Albuquerque, que cede mais material para nova sessão de filmagens na caatinga. Depois de mais cenas da vida cotidiana dos cangaceiros, era hora de divulgar a novidade. Em 27 de dezembro de 1936, o Diario de Pernambuco é o primeiro jornal do Brasil a publicar a façanha do libanês. Na entrevista, recheada de fotos de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros, Abrahão descreve como se encontrou com o homem que a polícia de sete estados não conseguia prender ou matar por quase duas décadas. “Fiz tudo para ver se escapulia alguma frase indiscreta. O capitão é ignorante, mas inteligência não lhe falta”, afirmou Abrahão ao Diario.
A Muito deste domingo traz uma reportagem com o percussionista Gabi Guedes, que este ano irá lançar o disco Pradarrum (Cana Brava Records), em que registra os toques sagrados do candomblé das três nações – ketu, jeje e angola. Confira o Vassi para Ogum:
Breno Fernandes
A Muito desde domingo traz, na seção Orelha, entrevista com o designer e escritor paulista Gustavo Piqueira, autor de engraçadíssimas obras sobre a cultura urbana brasileira, a exemplo do Manual do Paulistano Moderno e Descolado e Lobisomem Reflete Sobre as Confissões de Santo Agostinho Numa Festa Insuportável nos Jardins.
A seguir, confira trechos inéditos da entrevista com Piqueira e, também, uma crônica de sua autoria.
REVISTA MUITO: Ainda sobe design & literatura, o que um faz pelo outro?
GUSTAVO PIQUEIRA: Acho que num livro há alguns pontos de intersecção entre ambos — desde o quanto a escolha de uma mancha de texto e família tipográfica ajudam (ou atrapalham) a leitura, até o quanto uma capa faz parte da memória que guardamos de um determinado livro. Mas, salvo livros em que o projeto gráfico é mais eloquente (em geral juvenis/infantis), os pontos de intersecção não são, necessariamente, pensados em conjunto. Num livro “tradicional”, o design entra depois do texto, como um elemento de interlocução entre este e o leitor (mas sem o poder de salvar ou destruir o conteúdo).
RM: E o que ambos fazem por ti?
GP: São complementares para que eu entenda, elabore e devolva algo para o mundo em que vivo.
RM: As crônicas de Manual do Paulistano Moderno, que faz críticas ferinas ao estilo hype, não te causaram problemas?
GP: Para ser sincero, todos os meus livros (com exceção dos juvenis) me causaram problemas — geralmente pessoas próximas que se identificaram como modelos de determinado personagem, sentiram-se ironizadas demais e terminaram por se afastar. Felizmente ainda restam algumas, prontas para que eu as afaste nos próximos livros.
RM: O que muda quando você começa a escrever algo para o público infanto-juvenil?
GP: Em geral, recomendações da editora para não falar sobre temas como Deus, morte, falta de caráter generalizada do ser humano e alguns outros assuntos que eles sabem fazer parte da minha lista de favoritos.
Ronaldo Jacobina
Nem só de roupas vivem os brechós. No de Ana, por exemplo, é possível encontrar louças inglesas antigas, cristais Fratelli Vita, objetos, abajures e até puxadores de portas. Tudo muito mais em conta do que costuma ser cobrado nos antiquários. Móveis, carrinhos de bebê, roupas e outros acessórios infantis são mercadorias que também costumam compor o estoque dos brechós.
No Cabral, que fica no Santo Antônio Além do Carmo, roupa não é o foco do espaço, mas lá se acha desde fotografias em 3X4 de desconhecidos até móveis e utensílios domésticos de boa qualidade. Claro que para isso é preciso ter espírito de garimpeiro para fuçar prateleiras e as muitas quinquilharias espalhadas de forma desordenada por todo o antigo casarão. Mas com boa vontade, pode-se fazer excelentes aquisições.
Ada Tem de Tudo é uma outra opção para quem gosta de quinquilharias. A loja, dirigida por Ada Cajado, é um mix de brechó e antiquário, mas com “preço diferenciados dos praticados pelos comerciantes de antiguidades”, conforme ressalta a proprietária.
O espaço, que funciona no bairro do Nazaré, bem poderia dar a sua dona o título de rainha dos cacarecos. Lá é possível encontrar desde gramofones até discos de vinil, os famosos bolachões.
De volumes da enciclopédia Delta Larousse a cristaleiras . De luminárias a poltronas que carecem de um novo estofamento. Para quem gosta de garimpar, uma visita ao brechó de Ada é uma visita obrigatória.
Vá lá
CABRAL DESCOBERTAS
Rua Direita do Santo Antônio, Tel.
3326 9877
ADA TEM DE TUDO
Rua do Gravatá, 11, Nazaré. Tel. 71 3241 7610
Regina de Sá
Muito do que foi escrito sobre o filme O Fantástico Senhor Raposo (The Fantastic Mr. Fox, 2009), que estreou semana passada em Salvador, atesta a boa mão do diretor Wes Anderson (Os Excêntricos Tenenbaums, 2001) em adaptar a história, baseada no livro homônimo de Roald Dahl, autor também de outro clássico levado para as telonas, A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005). Trata-se de uma animação, mas não espere levar os filhos e vê-los com os olhinhos grudados na tela. O Senhor Raposo tem mais a dizer aos adultos do que aos pequenos.
Primeiro porque a cópia disponível não é dublada,o que já é um tremenda vantagem para quem curte assistir a uma animação na língua original. George Clooney e Meryl Streep fazem a voz do senhor e da senhora Raposo com muita graça. A trama é tipicamente “humana”, no sentido de explorar os dramas familiares – filho adolescente que busca a atenção do pai, esposa preocupada em manter o núcleo familiar de um modo honesto e um pai ausente e, ao mesmo tempo, metido a esperto, com certo ar de herói quando se necessita da presença de um líder.
Outra interessante reflexão que se pode tirar de O Fantástico Senhor Raposo é até onde vamos com a gana em destruir o meio ambiente e expor os animais à fadada extinção. No final das contas, pode-se dizer que O Fantástico Senhor Raposo, quando se põe a discutir “humanização” dos bichos, deixa evidente que, cercadas,quase todas as espécies da natureza, quando ameaçadas, não têm outra saída mesmo,a não ser ficar cada vez mais próximas dos humanos. No fundo, ao tirarmos o espaço dos bichos em nome do progresso, a “briga” é boa, porque o desequilíbrio ambiental entra em ação – e sabe-se que há um preço a se pagar por isso.
O Senhor Raposo bem que tenta “esquecer” que é um animal selvagem, levando uma vida “dentro dos limites”. Mas o instinto uiva mais alto e ele parte para o confronto com os homens poderosos que vivem no mesmo lugar que ele. Eis um grande desafio e que, de uma maneira irrefutável, este planeta terá de se deparar: quem será forte o suficiente para suportar essa disputa por um lugar para se vive.
Muito do que foi escrito sobre o filme O Fantástico Senhor Raposo (The Fantastic Mr. Fox, 2009), que estreou semana passada em Salvador, atesta a boa mão do
diretor Wes Anderson (Os Excêntricos Tenenbaums, 2001) em adaptar a história, baseada no livro homônimo de Roald Dahl, autor também de outro clássico levado
para as telonas, A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005). Trata-se de uma animação, mas não espere levar os filhos e vê-los com os olhinhos grudados na
tela. O Senhor Raposo tem mais a dizer aos adultos do que aos pequenos. Primeiro porque a cópia disponível não é dublada,o que já é um tremenda vantagem para
quem curte assistir a uma animação na língua original. George Clooney e Meryl Streep fazem a voz do senhor e da senhora Raposo com muita graça. A trama é
tipicamente “humana”, no sentido de explorar os dramas familiares – filho adolescente que busca a atenção do pai,esposa preocupada em manter o núcleo
familiar de um modo honesto e um pai ausente e,ao mesmo tempo, metido a esperto, com certo ar de herói quando se necessita da presença de um líder. Outra
interessante reflexão que se pode tirar de O Fantástico Senhor Raposo é até onde vamos com a gana em destruir o meio ambiente e expor os animais à fadada
extinção. No final das contas,pode-se dizer que O Fantástico Senhor Raposo, quando se põe a discutir “humanização” dos bichos, deixa evidente
que,cercadas,quase todas as espécies da natureza, quando ameaçadas, não têm outra saída mesmo,a não ser ficar cada vez mais próximas dos humanos. No fundo,ao
tirarmos o espaço dos bichos em nome do progresso, a “briga” é boa, porque o desequilíbrio ambiental entra em ação – e sabe-se que há um preço a se pagar por
isso. O Senhor Raposo bem que tenta “esquecer” que é um animal selvagem, levando uma vida “dentro dos limites”. Mas o extinto uiva mais alto e ele parte para
o confronto com os homens poderosos que vivem no mesmo lugar que ele. Eis um grande desafio e que, de uma maneira irrefutável, este planeta terá de se
deparar: quem será forte o suficiente para suportar essa disputa por um lugar para se vive Regina de Sá
A peça O homem da tarja preta, com o ator baiano Ricardo Bittencourt, volta a cartaz nas quintas-feiras de março, com sessões seguidas de debates sobre o que é ser homem (e macho) nos tumultuados dias que correm.
Nesta quinta, 4/3, os convidados são a psicóloga Mônica Daltro, que coordena o curso de de psicologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, o fundador do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott, e o delegado de Itaparica, José Magalhães.
No próximo dia 11, o debate terá a primeira-dama do Estado, Fátima Mendonça, a psicanalista Sandra Pedreira e o artista plástico Bel Borba. Os convidados dos espetáculos seguintes, nos dias 18 e 25, ainda serão definidos.
O Homem de Tarja Preta | Com Ricardo Bittencourt. Texto de Contardo Calligaris e direção de Bete Coelho | Teatro SESC – Casa do Comércio | Todas as quintas-feiras, às 21 horas | R$ 40 (inteira) e R$20 (meia) | (71) 3272 4263.
Breno Fernandes
Confira dois textos inéditos do escritor Hugo Homem, entrevistado desta semana na seção Orelha:
HISTÓRIA SEM PÉ NEM CABEÇA
O sol vermelho acabara de se afundar no horizonte, lançando do fim do mundo as ultimas chispas sobre um céu que repentinamente arrefecera o tom de azul luminoso, substituindo-o por um cinza esmaecido. A três quartos do firmamento passou-se a ver uma nesga de lua, fina e recurva, a produzir uma luz insuficiente para enfrentar a escuridão que se avizinhava.
Na brisa agradável, a criancinha brincava no jardim, observando o azáfama incansável de um formigueiro, cada um dos componentes da colônia a ir e vir com sua atividade específica: as cortadeiras cortando, as carregadeiras carregando, as guerreiras doidinhas para guerrear.
Isolou uma enorme formiga vermelha, de grandes e poderosas mandíbulas e se divertiu fazendo-lhe raiva, tendo-a cutucado e obrigado a morder um longo talo de capim.
Com a ajuda de uma tampinha de refrigerante arrancou, uma por uma, todas as seis pernas, as quais ainda ficaram se mexendo, separou o tronco do abdome e por fim decapitou-a.
De repente sua mãe chamou-o, carinhosamente, um tom suave no diminutivo, bem diferente de quando, zangada, dizia seu nome completo, e ele largou tudo e saiu correndo, alegremente, para tomar o lanche da tarde.
O QUARTO MINGUANTE
“Quando eu morava em Itaparica, me dava pena ver aquela geração de jovens fortes, dispostos, boa gente, bem formados, com duas opções de futuro: ou migrar de lá, e nunca mais aparecer, ou cair na cachaça, no desemprego, na saúde precária já aos quarenta anos. Ficam uns cacos. As moças, tão bonitas, cada princesa que você vê assim aos doze, treze, quatorze anos, você chega uns cinco anos mais tarde já encontra aquela velhota de quarenta e cinco. Já sem dente, por causa da gravidez precoce, aquela tristeza que a miséria produz. Eu então chamei o pessoal e falei: ´aqui tem uma certa infra-estrutura, vamos bolar um calendário para a ilha? Por exemplo, um festival de pesca de peixe miúdo; em setembro, que é época de vento, empinar arraia, fazer um festival disso… Um festival de música qualquer, uma onda.. Inventar coisas, bolar…´. Rapaz, foi um negócio! Criaram comissão, já queriam botar jeton pra mim (algum dinheiro), eu disse, ´eu não quero jeton nenhum, eu não sou de comissão, ainda mais vindo do imposto pago pelo povo, que é miserável…´ (risos). Foi tal confusão e apresentação de planos. As pessoas entravam, cada qual com seu ´peixe´ pra vender. As pessoas falavam e não se ouviam, esperavam a própria vez – mesmo que fosse pra repetir o que foi dito na fala anterior (risos). Acabou que parte da Câmara Municipal de lá se reuniu e, se pudesse revogar um registro civil, eles revogavam o meu. Começaram a se referir a um bando de ´forasteiros´. Aí mandei todo mundo pra puta que pariu: ´vocês vão ficar na merda, mesmo, se quiserem´. Porque lá dizem que eu ´nunca fiz nada pela ilha´. Quando eu fui escrever para O Globo, pela primeira vez, já há uns vinte anos, escrevi logo mencionando Itaparica. Aí vieram me lembrar que eu estava escrevendo para um jornal carioca, que não botasse ´esse negócio de Itaparica, ninguém nunca ouviu falar, fica melhor direcionar sua crônica para o público carioca e tal…´. Deram a mim uma orientação amigável à qual eu não dei a menor importância. E Itaparica hoje, ao ser mencionada, não precisa que ninguém mais explique que é uma ilha, antigamente tinha que botar: ´Itaparica (ilha localizada na Baía de Todos-os-Santos)´. Hoje não precisa. No entanto, dizem que eu nunca fiz ´nada pela Ilha´. É igual dizer que Dorival Caymmi, porque nunca fundou um asilo com o próprio nome, nunca fez nada pela Bahia” (Notícias da Bahia, Feira de Santana, maio de 1999)
O depoimento acima é do escritor João Ubaldo Ribeiro, 69, que mora no Rio desde 1992, no apartamento que já foi de Caetano Veloso. A reportagem da Muito #100, que está nas bancas neste domingo (28/01), conta que João Ubaldo gosta de curtir o verão no lugar onde nasceu: a casa do avô na ilha de Itaparica, onde morou por quase oito anos – já escritor reconhecido, na década de 80.
Lá, reencontra velhos conhecidos, descansa um pouco e repete um certo ritual diário: manhãs no mercado do peixe e almoços no Largo da Quitanda. Fica, em tese, livre do assédio da grande imprensa.
Este ano, passou um mês em Itaparica, entre as primeiras semanas de janeiro e de fevereiro. Não foram férias totalmente calmas, já que Ubaldo não se aquietou: levantou polêmica ao se posicionar contra a ponte entre Salvador e Itaparica. A obra foi anunciada pelo governo do Estado sob o título de “Sistema Viário Oeste”, no começo de janeiro.
Se a postura de João Ubaldo ganhou o apoio de gente famosa e influente no meio artístico, como Chico Buarque e Cacá Diegues (veja manifesto online), ao mesmo tempo lhe rendeu críticas locais, nos campo das forças políticas e econômicas da Bahia.
O irmão mais novo, Manuel Ribeiro Filho, é diretor da construtora OAS e já tem estudos e projetos em desenvolvimento para a ponte. O governador Jacques Wagner lançou em janeiro um convite público para que pessoas físicas e jurídicas manifestem interesse em realizar a obra. A OAS já está no páreo. Para o irmão caçula do escritor, é natural que ambos pensem diferente, apesar de terem tido a mesma formação.
“Nós tivemos uma discussão bastante cordial via email”, conta Ribeiro Filho. “Minha relação com ele é bastante cordial. Cada qual no seu ponto de vista. Eu sou engenheiro, sou executivo, ele é intelectual. Ele é bem mais velho do que eu, então eu convivi pouco, na casa paterna, com ele. Então, cada qual tem sua vida. Claro, temos relação totalmente cordial, mas cada um pensa de uma forma. E eu acho que é muito natural que as pessoas pensem diferente”.
Na sede da OAS, na Graça, dois Mercedes-Benz de luxo repousam na garagem externa, aos cuidados de seguranças particulares, enquanto em uma sala de reuniões o diretor da construtora para a Bahia, Sergipe e Alagoas pega o celular pessoal e mostra para a reportagem de A TARDE que enviou um email ao irmão escritor, em cumprimento ao aniversário.
“Mandei no dia 23 de janeiro, em pleno quebra-pau: ‘Meu irmão, parabéns. Desejo-lhe muita saúde, sucesso, paz e alegria. Espero que tenha havido alvorada com foguetes de flecha. Boa festa. Abraço do irmão caçula e família.’ Toda a pessoa importante quando fazia aniversário, tinha alvorada, com foguetes de flecha”, contou.
A resposta de Ubaldo foi: “Muito obrigado, meu irmão. A festa foi boa. Muitos beijos do irmão mais velho JU”. Dez anos mais novo, Manuel guarda o telefone e conclui: “Isso não impede que ele fale cobras e lagartos, mas é do próprio jogo democrático”.
O vão central da ponte proposta pela OAS teria 500 metros de comprimento por 80 de altura. “Essa é nossa ideia. Fizemos nosso estudo sem autorização nenhuma do Estado”, diz o engenheiro. “Mas eu não iria oferecer o Estado para estudar sem ter certeza de que haveria possibilidade de viabilidade”.
No dia 26 de janeiro de 2009, ele entregou, assinando como diretor da OAS, uma petição à Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado, pedindo autorização para fazer os estudos. O pedido foi indeferido. Um ano depois, o Estado abriu o “convite de manifestação de interesse”.
O chamado “Sistema Viário Oeste” inclui a duplicação da ponte do Funil e outros trechos rodoviários do Recôncavo, além de obras federais de extensão do km 0 da BR 242 para o porto de Salvador. Depois de 14 de março, prazo final para empresas interessadas responderem ao convite de manifestação de interesse, o governador vai definir, por decreto, uma comissão que vai escolher a melhor proposta de estudos.
Mas o secretário de planejamento, Walter Pinheiro, adiantou para A TARDE, em janeiro, que não há meios da fase licitatória da obra iniciar em 2010, por ser este um ano eleitoral.
Bem no auge da discussão, trocamos umas palavrinhas com o filho mais famoso de Itaparica. A rápida conversa, transcrita abaixo, elucida um pouco da relação do escritor com a ilha. A entrevista foi concedida às 17h30 do dia 23 de janeiro, na sombra do quintal da casa que era do avô. Coisa de uns 45 minutos antes, 69 anos atrás, ele estaria nascendo, de parto difícil, naquela mesma casa.
Muito – Há personagens nas suas crônicas e romances que são pessoas de verdade, daqui de Itaparica, como Espanha, Grande, Osmar, Zecamunista e Jacob Branco… Como é que isso funciona?
João Ubaldo – Às vezes conto o que aconteceu, às vezes mudo. Mas só brinco porque são meus amigos. Com quem eu não gosto, não brinco – a não ser que seja para denunciar. No fundo, é a brincadeira de botar o nome deles no jornal.
Muito – Mas alguns deles não conhecem sua obra. Isso te preocupa?
João Ubaldo – Não. Eu sei que a maioria não lê… (pausa). Mas, Zeca (Zecamunista), não. Zeca é um homem de grande valor, não só profissionalmente, como um homem de cultura.
Muito – Quem é Gugu Galo Ruço e Beto Atlântico, citados em crônicas recentes para o jornal A TARDE?
João Ubaldo – Gugu Galo Ruço existe, estava aí… É um amigo meu, acho que eu trabalha com imóveis, mas não mora aqui. Vem muito aqui. Beto Atlântico é dono do Mercadinho Atlântico, aqui de Itaparica.
Muito – No ano passado, você disse que ia retomar uns personagens de Miséria e Grandeza do Amor de Benedita e de Já Podeis da Pátria Filhos para voltar a falar mais do universo humano da ilha. Como está esse projeto?
João Ubaldo – É, eu disse. Mas não sei se vou fazer, não. Às vezes, eu penso nisso, mas não tenho certeza. Às vezes eu falo que vou escrever, mas isso não acontece nunca. Quero escrever mais histórias com eles.
Muito – Algum personagem de O Albatroz Azul é inspirado em uma pessoa real aqui de Itaparica?
João Ubaldo – Não, não. Eu nem uso essa palavra, “inspirado”. Mas, com certeza, deve parecer com algumas pessoas aqui de Itaparica. Porque se o personagem é verossímil, ele parece com alguém. Se é pão-duro, vai parecer com algum pão-duro que você conhece…
Muito – Ouvi hoje de uma de uma senhora que já tinha tomado uma cachacinha: “Hoje é aniversario de Itaparica!”
João Ubaldo – Hehehehehe… (rindo…)
Muito – Aí, alguém corrigiu: “Não, é aniversário de João Ubaldo!” E ela: “Ah, é? Mas é a mesma coisa!”
João Ubaldo – É uma maravilha isso! Eu fico contente de saber disso!
Muito – E é verdade. Mas, e as orelhas do prefeito de Itaparica? Andam meio queimadas, por aqui?
João Ubaldo – O que aconteceu com o Vicente foi que quando eu morava aqui e votava aqui, votei contra Vicente, isso é verdade. Mas já me oferecei para ajudar, não sei se ele se lembra; ajudar, fazer alguma coisa para movimentar a vida aqui. A única coisa que foi aproveitada, e mesmo assim por um amigo meu, foi o concurso de pesca de carapicun; mas eu não bolei para dar prêmio João Ubaldo! Bolei um calendário turístico, me ofereci para ajudar, fazer um festival aqui, quando tinha o Grande Hotel. Mas ninguém queria. Vicente acha que eu não gosto dele. Vicente é afilhado de meu avô, conheço ele desde pequeno.
Muito – Ontem (22/01) saiu seu artigo no jornal A TARDE, um manifesto contra a ponte para Itaparica. Que repercussões têm tido sua opinião?
João Ubaldo – Contra o interesse econômico, um artigo resolve muito pouco… (olha para a repórter em silêncio, fumando um cigarro).
Muito – No caso do Forte São Lourenço, quando fizeram e a zona de desmagnetização de navios, você também se manifestou contra. Adiantou alguma coisa?
João Ubaldo – Não adiantou nada. Quem veio aqui foi o almirante Blower, o então comandante do 2o. Distrito Naval. Ele veio em pessoa, com o oficialato dele. Me convidaram para almoçar. Foi uma grande deferência.
E um telefonema interrompeu a entrevista. “Vou precisar me ausentar um bocadinho”, pediu licença Ubaldo, e partiu para o interior da edificação. Logo depois, colocou uma camisa, aberta até o terceiro botão; sob os protestos da mulher, Berenice, voltou para dentro e colocou outra. Esperou Berenice fechar a casa. Então, foi com ela, a filha Emília e um casal de amigos para a Biblioteca Juracy Magalhães Jr., onde aconteceu a já tradicional homenagem pelo seu aniversário.
“Suponho que não tenho nenhuma razão em querer que Aracaju e Salvador ficassem como eram, mas comigo é assim, para mim nem uma, nem outra, são mais as minhas cidades. Só me sinto à vontade mesmo em Itaparica. Se fizerem uma ponte para Salvador, organizo uma brigada dinamitadora e vou à luta” (João Ubaldo para o Jornal da Bahia, em 1985)
