“O que me atrai no teatro é o coletivo”
postado por Tatiana Mendonça @ 12:32 PMO prédio centenário da Escola de Teatro da Ufba, no Canela, já ouviu muitas vezes aquela risada. Com seu peculiar bom humor, o ator, diretor e professor Harildo Déda, 72, revisita 50 anos de carreira. Citado como referência do teatro na Bahia, o mestre diz que só tem memória para os trabalhos que lhe deram prazer. E foram quase todos. A escolha pela arte valeu todos os sacrifícios e até os perrengues com a família. “Tive que me virar. É o que eu chamo de seis meses de esfirra com Coca-Cola”. Bem que tentou Letras e Direito, mas a paixão era antiga. Aos três anos, frequentava o cinema da pequena Simão Dias, Sergipe, onde nasceu. Anos mais tarde, trocaria seu lugar na plateia pelo palco. Depois, chegaria às salas de aula. Sua trajetória remete a sucessos como Central do Brasil, no cinema, e, ainda em 1998, Dona Flor e Seus Dois Maridos, na TV, linguagem que retoma este ano. Nos palcos, seu acervo fabuloso reúne cem espetáculos. Déda não para. Estreia La Ronde, 2 de março, na Sala do Coro do TCA. Mas, a expectativa é para vê-lo, este ano, transfigurar-se para viver o visceral Rei Lear.
Que trabalho você quer incluir em seu acervo profissional?
Dizem que gosto de Shakespeare, mas só dirigi, nunca atuei como ator em uma peça dele. Então, eu não queria não, mas me botaram tanto na cabeça que acho que neste ano sai o Lear (Rei Lear).
E o que te levou a revisitar o texto de Arthur Schnitzler, La Ronde, montado pela Cia da Escola de Teatro nos anos 1980?
É um novo olhar 20 anos depois. A primeira montagem foi Hackler quem dirigiu e me chamou para codirigir e para trabalhar como ator. Agora, Paula Moreno, Analu Tavares, Thais Laila e Manhã Ortiz me pediram para eu escolher um espetáculo para dirigi-las. Sugeri este e elas adoraram.
Por quanto tempo você vai se dedicar a este projeto?
O espetáculo estreia no início de março, e logo depois viajo. Foi só um mês para ensaio, para tudo. Eu sou louco!
Você não mede as consequências?
Se eu medisse, não faria.
E teria escolhido o teatro?
Não. Entrei no teatro porque me deu prazer de fazer. Tudo se resume nisso: no prazer de fazer.
Um prazer que te levou longe. Em sua trajetória você tem um acervo de mais de 70 peças como ator e mais de 20 espetáculos como diretor, além de muitos trabalhos no cinema e na TV. Como você avalia o seu patrimônio?
Me veio agora o título da biografia de Neruda: Confesso que Vivi. Teatro é extremamente generoso para lhe dar oportunidade de você se formar e reformar. Ou como diz o poeta: “Fazer e refazer e fazer um só mistério”. A gente vai fazendo e refazendo e se transformando. O bacana disso tudo é isso. Estou com 72 anos e ainda estou me transformando.
Você vê uma grande transformação ao longo da trajetória?
Foi a cada dia. Na Escola de Teatro gostava de dizer aos meus alunos: Sou vampiro de juventude. Eles me davam sangue novo. Me diziam o que transformar e como transformar. E como reviver.
É uma troca, não?
É sim.
Seus alunos falam de você como um mestre que transmite não só o conhecimento, a técnica, mas o seu amor pelo teatro.
Acho que ensinar, e principalmente a arte, não é passar teoria, mas passar a experiência para o outro. E o que o outro faz dessa experiência. E aí deixa… Eu me lembro de A Última Sessão de Teatro, que fala da última sessão de teatro daquele teatro para o jovem ator (e não para o velho professor). É com aquele cabedal que o menino vai transformar-se, mudar para um outro tipo de teatro que ele quer.
Do que é feito o bom ator?
Muita gente acha que talento é o essencial, mas para mim essencial é a vocação. É o chamamento. É o ser chamado para fazer isso e daí, como consequência, como corolário, a tenacidade para fazer. Uma vez, eu disse a um ator com quem estava trabalhando: menino, você tem talento de sobra, agora ache urgente sua vocação nisso, porque, senão, não vai adiantar o talento. E ele achou. O importante não é pegar pelo braço e dizer: vá por aqui. Mas mostrar as possibilidades, os caminhos e dizer: escolha.
Você está fazendo uma definição do “mestre Harildo”?
Acho que sim. Demorou muito para chegar a isso, mas acho que sim. Acho que você tem que dar oportunidade ao indivíduo de escolher. Ensinar é escolher. É você levar para as encruzilhadas e dizer: olha, tem esses caminhos aqui, siga.
Você tem formado bons atores e Vladimir Brichta está entre eles.
É, tenho muito orgulho disso. Tenho uma boa lembrança dele numa peça que fizemos aqui, comemorando os 25 anos da Escola de Teatro com A Casa de Eros. Ele e Wagner Moura se revezavam no mesmo papel e era muito bom trabalhar com eles. Era o velho ator, o velho mestre, dando o sopro para o jovem ator. E Wagner diz que não esquece nunca desse sopro com o cheiro de Marlboro vermelho. Na época, eu fumava.
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Os africanos chegaram à Baía no início da ocupação portuguesa, como escravos, e resistiram nos quilombos e terreiros de candomblé, mapas da África, reunião do que a Diáspora espalhou. Primeiras instituições brasileiras, suas líderes, as yalorixás, obtiveram de Getúlio Vargas, no século 20, o que políticos e intelectuais não conseguiram. Mãe Aninha (1869-1938), do Ilê Axé Opô Afonjá, alcançou a liberdade de culto para o candomblé, proibido no País.
O Ilê Aiyê (1974) surgiu no Curuzu para fazer o Carnaval, liderado pelo filho da yalorixá Hilda. Sua função não era apenas desfilar em horários estranhos, mas falar aos negros de suas belezas, inteligência e poder, embaralhados sob a árvore do esquecimento, na Costa da África, até o século 19. Fundado em 1979, no Pelourinho, como um bloco, o Olodum politizou-se em 1984, com a chegada de João Jorge e Neguinho do Samba, dissidentes do Ilê, redefiniu seu foco e se tornou, no início dos anos 1990, uma corporação respeitável e temível. O Ilê e o Olodum eram, em 1990, dois símbolos da força da população negra da Bahia, ainda hoje uma das mais pobres do País.
As criações musicais e coreográficas dessas organizações, e das que surgiram delas, como Cortejo Afro e Muzenza, disseminadas nos ensaios, no Curuzu e Pelourinho, foram definitivas para a formatação da axé music, do Carnaval e dos blocos. O Olodum, talvez a marca mais conhecida da Bahia no mundo, trouxe Mandela a Salvador, logo depois de sua saída da prisão, Michael Jackson e Paul Simon, que gravaram com o grupo que já tocou praticamente em todas as partes do planeta.
Hoje, Olodum, Ilê, Cortejo Afro e Muzenza parecem silenciosos diante da desigualdade e do desconforto dos negros baianos, apesar de Ilê e Olodum conduzirem projetos educativos. Os grupos afro estão separados do Carnaval axé music, ainda fortíssimo, que fará mais uma diva em 1993, Ivete Sangalo, que lá atrás, antes de se tornar a mais conhecida popstar do Brasil e América Latina, avisou “Não sou uma cantora só de funk. Posso cantar até samba-de-roda.” Verdade.
>> Circuito Dodô – Barra/Ondina
Quinta-feira, 16/2

22h Projeto Especial: Eu Amo Salvador – A Zorra
00h Os Mascarados: Banda Os Mascarados (com participação de Gaby Amarantos, Márcia Castro e Márcia Freire)
00h20 É Massa – Saiddy Bamba
Sexta-feira, 17/2
15h -Trio Escola Aprendizes de Samba Reggae – Márcia Short, Escola de Percussão, Didá
18h Projeto Especial: Moraes Moreira – Moraes Moreira
19h Trio independente Daniela Mercury – Daniela Mercury
21h30 Projeto Especial: Carlinhos Brown e o Camarote Andante - Carlinhos Brown e convidados
23h Projeto Especial: Eu amo Salvador – A Zorra
1h20 Dub Carnavalis – Mini Estéreo Público, MC Daganja, Buguinha Dub, MC Jimmy Luv, Mc Dimak
Sábado, 18/2
14h30 Música das ruas – Dionorina, Banda Cativeiro, Grupo Domínio
19h Projeto Especial: Magary Lord – Magary Lord
0h40 Três na folia – Manuela Rodrigues, Sandra Simões e Cláudia Cunha.
Domingo,19/2

18h30 Trio Armandinho Dodô e Osmar – Armandinho e Irmãos
20h Trio do Samba 2012 – Edil Pacheco, Vania Bárbara, Claudia Costa, Aquaerla do Samba, Banda cor do Brasil
21h30 Projeto Especial: Moraes Moreira – Moraes Moreira
23h30 Quatro RS – Kamaphew Tawa, Makonen Tafari, Beri Griot, Aurelino Costa
Segunda-feira, 20/2
14h30 A voz do Samba Reggae – Tonho Matéria, Lucas Di Fiori, Afro Jhow
20h Trio Armandinho Dodô e Osmar – Armandinho e Irmãos
20h30 Projeto Especial: Carlinhos Brown e o Camarote Andante – Carlinhos Brown e convidados
23 h Retrofolia 2012 – Retrofoguetes, Paulo Chamusca, Júlio Moreno, Mintcho Garrammone, Kaverna
Terça-feira, 21/2
14h30 Trio do Boca – Paulinho Boca de Cantor, Lucas Santana, Karina Buhr.
21h30 Trio Armandinho Dodô e Osmar – Armandinho e Irmãos
22h Alexandre Leão e Amigos – Alexandre Leão, Carlinhos Cor das Águas, Mônica Salmasso
>> Circuito Osmar – Campo Grande
Quinta-feira, 16/2
19h30 Projeto Especial: Chiclete com Banana – Chiclete com Banana
Sexta-feira, 17/2
22h40 Movimento de Rua – Pagoleiros, Frutos do Engenho, Q’Fascina
0h40 Batuque coração – Lazzo, Moa do Katende, Samba de Roda Urbana
Sábado, 18/2
13h30 – Família Brasil na Folia – Luis Brasil, Mou Brasil, Jorge Brasil
18h Trio Armandinho, Dodô e Osmar – Armandinho e irmãos
00h Pipoca Doce – Gerônimo, Baiana System e Márcia Castro
Domingo , 19/2
13h Projeto Especial: Carlinhos Brown e Timbalada – Carlinhos Brown, Timbalada e convidados
14h30 Papa / É chique ser do bem – Jammil
18 h Trio do Boca – Paulinho Boca, Guilherme Arantes, Tulipa Ruiz
22h Miscigenassom – Tamima Brasil, Moreno Veloso, Xis
0h40 Moderna tradição do samba – Sambatrônica, Walmir LIma, Aline Calixto, Escola de Samba, Unidos de Itapuã
Segunda-feira, 20/2
13h Projeto Especial Balada – Tuca Fernandes
23h20 Carnarock – Camisa De Venus, Arapuca, Aparelhos Multiuso, Keko Pires, Incrédula
0h20 Quilombola Soul – Dão, Stacie Aamon, Dj Rémy Kolpa Kopoul
Terça-feira, 21/2

15h Cheiro de Amor – É o Tchan
16h Pipoca do Eva – Banda Eva
18h Tiete/Arrocha – Pablo
23h – Raízes da Bahia – Roberto Mendes, Wilson Aragão, Barlavento, Samba de Roda de Quingoma, Camerata Popular
23h50 – Guitar Heroes – Edgar Scandurra, Lucio Maia, Juracy do Amor
Para ver a programação completa dos circuitos, clique aqui. A relação dos trios pipoca da Secretaria Estadual de Cultura pode ser consultada aqui.
Axé-music foi recriada e multiplicada pelo jornalista Hagamenon Brito nos jornais onde ele escrevia, depois que os roqueiros baianos alcunharam a música que não parava de tocar nas rádios e nas ruas de axé, e o trio elétrico que a levava de forno micro-ondas. Sua primeira musa, Sarajane, estourou com o hit Abre a rodinha (1987), de Alfredo Moura, definindo a ascensão como de “uma branca que fazia música de preto e dançava com a graça deles”.
Mas essa exposição nacional, que deu a Sarajane o título de Madonna brasileira, empacou no início dos Anos 1990, reclamando de infraestrutura que sustentasse a indústria cultural da Bahia. Em 1991, Eduardo Bastos registrou na imprensa que Sarajane estava de couro preto e saias curtas, nas noitadas de rock´n´roll do Mata Hari. E citou, também, uma outra musa, Daniela Mercuri, sem o y, ainda, fazendo um axé mais suave, com jeito de lady.
Mercuri cantava MPB, mas no Carnaval de 1991, foi a estrela do trio mais importante do circuito, o Paes Mendonça, musa que o axé precisava para explodir no Brasil. Neste ano, os estacionamentos da Praça Castro Alves, miolo do Carnaval, foram arrendados para camarotes, e a indústria do Carnaval se exportou para Natal (RN), e envolveu 1 milhão de pessoas nos blocos, camarotes, arquibancadas.
Além de Mercuri, a axé-music recebia também um muso, Carlinhos Brown, visto por Arto Lindsay, perito em música, em 1992, como um artista que poderia levar a música baiana para o mundo, e que apesar de percussionista, declarava seu interesse pela escrita, revelando que “através da palavra, encontro todas as sonoridades musicais. É o som da alma. Faz com que as coisas terrestres sejam mais claras, sem tristice, sem tá falando que é preto, que é branco, esta basbaquice que persiste principalmente na cultura baiana.”
Os pretos? Os Blocos Afro, Ilê Aiyê, Olodum, Ara Ketu, Muzenza, Cortejo Afro, Timbalada? Bem, a graça deles, fundamental à Bahia e à axé-music virão na próxima Trilha.
“É o mercado quem tem que estar subordinado ao Carnaval, e não o contrário”
postado por Tatiana Mendonça @ 7:00 AM
Como o senhor vê esse movimento de grandes estrelas saírem sem cordas no Carnaval?
Toda e qualquer ação dentro do Carnaval que atue na direção de permitir mais acessos, abrir mais à participação, é sempre bem-vinda. Mas acho que a gente tem que olhar as coisas exatamente como elas são. E aí me parece que isso está surgindo… Eu não duvido das intenções pessoais de ninguém, mas aí me parece que está acontecendo uma troca. A questão central é reorganizar a lógica dos desfiles, que nesse momento obedece exclusivamente aos interesses de mercado. E aí estou falando fundamentalmente da fila. Não faz sentido que essa fila empurre para determinados horários instituições do Carnaval que são verdadeiros monumentos, como o Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar ou os afoxés. Da maneira como está sendo feito, é absolutamente prejudicial à festa. Na realidade, hoje quando você negocia um bloco, está vendendo um lugar na fila, porque isso tem a ver com a dimensão midiática, espetacularizada da festa. Dependendo do horário que eu passo em frente às câmeras, isso aumenta ou diminui meu capital simbólico na hora de disputar o mercado. Se há uma disposição de se fazer algo diferente para o Carnaval, vamos fazer o que é certo. O Carnaval é a mais importante manifestação do patrimônio imaterial da cultura baiana e desgraçadamente vem sendo cuidado como se fora apenas um fato de mercado. Como a cultura acaba em muitos momentos produzindo renda, emprego, ela terminou virando importante. Essa ideia é muito perigosa. Cultura é importante porque é cultura, educação é importante porque é educação, saúde é importante porque é saúde, não precisa se explicar isso. O que é assustador é a maneira como a prefeitura trabalha, como se fosse mais um a disputar o mercado. Quem tem poder de polícia sobre a festa, no sentido de que pode organizá-la, pode determinar seus horários, a ocupação do seu espaço, é justamente a prefeitura. E ela simplesmente abre mão disso.
Como o senhor analisa a atuação do Conselho Municipal do Carnaval?
Infelizmente, com respeito a muita gente séria que atua ali, é uma farsa. O Conselho é formado por uma série de instituições que nem existem mais. Você conhece algum cronista carnavalesco? Isso existiu até os anos 60… E no entando ainda há no Conselho um lugar para a Associação baiana de Cronistas Carnavalescos. Você conhece algum clube social na Bahia que promova bailes de Carnaval? Pois eles continuam, através de uma associação de clubes carnavalescos, donos de um lugar no Conselho. Ou seja, o Conselho não representa a realidade da festa. E por conta disso não tem legitimidade para organizá-la. Nós vivemos uma situação absolutamente esdrúxula, já chega. É preciso deixar claro que a discussão não é contra o mercado, mas é o mercado quem tem que estar subordinado ao Carnaval, e não o contrário. Os artistas, as estrelas, têm que entender que foi o Carnaval que os fez grandes. Não foram as grandes estrelas que fizeram do Carnaval uma grande festa, porque ela já era uma grande festa. Essas inversões são um problema que precisa ser enfrentado, e só pode ser enfrentado com política cultural, com governança democrática e transparente, para discutir todas as questões. Por exemplo, não faz sentido ter um Conselho de Carnaval que não discuta abertamente com os moradores dos lugares onde a festa se realiza mecanismos de compensação. Tem formas? Tem. Esses moradores podem ter um benefício fiscal qualquer do ponto de vista dos impostos urbanos para compensar o incômodo que alguns possam sentir, e que evidentemente sentem. Você tem uma limitação do seu direito de ir e vir. O Conselho não tem capacidade para fazer isso. Não expressa nem o conjunto de atores, muito menos o conjunto de problemas.
Que novo modelo poderia ser pensado para ordenar os desfiles?
Você poderia montar um desfile em cima de critérios artísticos. Por exemplo, é possível lançar editais determinando a forma de organização dos desfiles a partir da própria diversidade do carnaval. Você ter alternativamente blocos de trio, blocos afro, afoxés, trios independentes, blocos de travestidos, etc, etc. O lugar na fila pode ser disputado a partir de projetos para o Carnaval. Uma das perversidades que esse mercado desregulado provocou é o empobrecimento plástico da festa. Acabaram-se as fantasias, os blocos hoje desfilam com os abadás, que são outdoors ambulantes. Não precisa ser dessa forma. O projeto de melhor indumentária, de fantasia mais interessante, com mais riqueza plástica, pode ser aquele que vai desfilar na frente. Não pode continuar sendo o que tem mais bala na agulha e muito menos vir com essa história mentirosa, desrespeitosa, de que o desfile é montado com base na ordem de antiguidade… Se fosse assim, quem desfilaria primeiro seria a Mudança do Garcia, que é dos anos 30, e depois os Filhos de Gandhy, que é de 1949. O que as pessoas não conseguem perceber é que quanto mais empobrecido esteticamente for o Carnaval, pior para o negócio. O negócio se tornou um grande negócio porque a festa era grande, diversa, múltipla. Se você a empobrece, o próprio negócio começa a se ressentir.
Como o senhor vê um modelo de negócio no Carnaval paralelo aos blocos de trio que incluísse os trios sem cordas? O senhor acha isso possível?
Tem uma coisa genial nisso tudo, o Carnaval é uma festa com uma capacidade de produzir soluções impressionante. Tá na medida inversa da incompetência dos gestores públicos que cuidam dela. Quanto mais incompetentes os gestores, mais o Carnaval tem que fazer para continuar sendo a nossa grande festa. Foi assim com o trio elétrico, em 1950. Caetano Veloso é precioso quando compreende o trio elétrico como uma solução estética que o povo da Bahia encontrou para produzir alegria, para enfrentar as suas agruras. O Carnaval continua produzindo essas soluções. Esse é um projeto interssante, mas não sei como vai experimentar desdobramentos, porque essa lógica (dos blocos de trio) dos últimos 20, 30 anos, em que o mercado veio se estabelecendo, é uma lógica muito forte. Mas acho que é possível sim que esses patrocínios continuem a existir mesmo que as cordas se desfaçam do ponto de vista da lógica contemporânea que inspira a ideia de corda.
“O Carnaval hoje é feito para turistas entediados”
postado por Tatiana Mendonça @ 7:00 AM
Como o senhor vê esse movimento de grandes estrelas saírem sem cordas no Carnaval?
Se isso não for uma atuação só para angariar simpatia e tudo continuar como dantes no reino de Abrantes… É simplesmente lamentável. Não creio numa mudança significativa no Carnaval da Bahia sem algumas atitudes básicas: 1. o povo de Salvador, organizadamente, através de suas entidades representativas, protestar decisivamente quanto à agressão que esse modelo de Carnaval comete contra a cidade. 2. a atuação do Ministério Público do Trabalho acabando com absurdos como a instituição dos cordeiros, que ferem o direito administrativo, quando são guindados à condição de parapoliciais. 3. consciência do poder público de que ele não pode continuar concordando com a usurpação do espaço público pelos blocos de trio, que transformaram o Carnaval de Salvador num balcão de negócios para a auferição de lucros e outros dividendos, com o lamentável apoio de artistas outrora compromissados com a causa popular. Vai ser caco para todo lado, mas essa é minha obrigação moral, eu não posso ficar calado.
Para o senhor, qual é o marco que dá início a esse modelo de “usurpação”?
Esse modelo perverso começa quando o trio passou a ter voz. O olho-gordo capitalista, das multinacionais, começou a investir no Carnaval e o folião foi virando, paulatinamente, massa de manobra. É preciso lembrar com muita veemência que esse modelo de Carnaval não é só uma discussão de boa ou má folia. Ele contribui e fortalece o rancor social num momento em que Salvador vive graves dificuldades, só não vê quem não quer. E sobretudo comete o maior dos atentados, vai liquidando todos os valores eternos da folia, como a música de Carnaval, a cordialidade, a fantasia, a diversidade, a pluralidade, tudo que fez do Carnaval de Salvador o maior Carnaval de participação do mundo. Hoje isso é mentira. O Carnaval de Salvador é um carnaval falido, descendo a ladeira. Um Carnaval feito para turistas entediados. Há mais de vinte anos venho sendo uma das vozes discordantes desse modelo e sempre me provocam dizendo que faço o diagnóstico, mas não aponto soluções. E tenho isso com muita clareza: sou absolutamente favorável a que sejam devolvidos os circuitos Dodô e Osmar à espontaneidade popular, para que o Carnaval da Bahia refloresça, renasça das suas próprias entranhas criativas e você possa ver de novo dezenas de manifestações convivendo juntas sem uma ameaçar a outra, manifestações essas que foram liquidadas pelo som predador do trio elétrico, que um dia já foi um revolucionário agente do Carnaval e hoje é um reacionário ator da folia.
Houve um momento em que as cordas não existiram no Carnaval de Salvador?
Nos primórdios do Carnaval de rua sempre houve corda, eram os chamados cordões. Mas eram cordões aglutinadores para o bloco não se dispersar. Não era para segregar ninguém. É diferente da corda que sustenta o privilégio para fazer grana. Essa corda é imoral. Porque nesse afã ela divide o Carnaval em dois tipos: o folião de elite e o folião de segunda classe, que se chama bandeirosamente de pipoca. O Jacu é contemporâneo d’Os Internacionais, do Barão, d’Os Corujas e todos saíam com corda. Até os blocos de índio saíam com corda. É uma cultura muito difícil de desentranhar nessa cidade. A gente não sabe por que uma cidade tão festeira, tão amigável, tão amorosa, adora essa coisa da segregação. Tinha um bloco chamado Mordomia onde as pessoas exibiam seus uísques dentro da corda. Não quero ser a palmatória do mundo, quero deixar bem claro isso, mas não estou falando à toa. Falo em nome de milhares de pessoas dessa cidade que não têm voz, que são obrigadas a sair de suas casas, são obrigadas a ficar exiladas porque um grupo de espertalhões resolveu fazer um modelo de Carnaval que interessa a quem? Esses números falaciosos do Carnaval nunca foram auditados. Ninguém sabe quanto é que a Bahia ganha realmente.
Por que o Jacu parou de desfilar?
Ficamos vinte anos na avenida e não satisfeitos – nós somos guerreiros do Carnaval, foliões verdadeiros – fizemos mais de 18 anos de “Chegando Bonito – Associação Etílica, Sentimental e Carnavalesca”. O nome é lindo. Conseguimos trazer grandes personalidades do Brasil para a avenida. É brincadeira você botar um João Ubaldo Ribeiro na avenida na frente do Chiclete, tendo que parar Bell (Marques) no grito, e a gente conseguir? Então são 45 anos fazendo Carnaval. Eu tenho direito de falar e bradar, tenho. Adoro Carnaval. O último argumento que resta a eles, que é um argumento patético, é me chamar de velho. Sou mais jovem que todos eles juntos. Aí dizem que o Jacu deu pra trás por falta de visão empresarial. Não, o Jacu não deu pra trás. O Jacu está vivo no coração das pessoas que amam o Carnaval da Bahia. E era uma equação muito simples. Não tinha nada de melhor nem pior, apenas não separava. Todo mundo podia brincar. Tinha Erasmo Carlos, tinha Pelé, tinha Fafá de Belém. Estou citando os famosos, mas não tinha nenhum apreço maior por eles serem famosos. O que o Jacu mais prezava era justamente o pé no chão, todo mundo igual. O Jacu acabou porque os espaços foram diminuindo e o barulho do predador venceu o barulho acústico. Nossa banda não era mais escutada. O Campo Grande chegou a ser um caldeirão sonoro que se você botasse um sueco desavisado, ele ficava doidinho. A gente adorava por isso, porque Carnaval é isso mesmo. A beleza do Carnaval é porque há um contrato coletivo de consciência alterada. Todo mundo concorda em ficar doido. Aí aquilo fica lindo. Essa consciência é sobretudo fortalecida com a alegria enorme do fraterno e do coletivo. “Quero me perder de mão em mão / Quero ser ninguém na multidão”. Essa sensação de você se perder é maravilhosa, é uma coisa linda. Se apaixonar no Carnaval? Não tem coisa igual! Quando ouvi “já beijei um, já beijei dois, já beijei três”, falei: tomara que dê sapinho na sua boca para você deixar de ser idiota. Seu espaço feminino invadido por qualquer garoto bêbado? Isso ser celebrado como um valor? Isso é uma vergonha, pô. Se apaixona, meu amor, vai viver um amor de Carnaval para você ver que coisa linda.
É curioso que alguns blocos afro também compartilhem dessa lógica das cordas.
Até os blocos afro usam corda, se submetem a comer as migalhas da festa. Não têm a coragem de parar os tambores na avenida e exigir seus direitos. Queria ver se o Ilê parasse, se todos os outros parassem, se essa situação não ia mudar… Mas eles aceitam.
Caco Marinho já estava com o projeto quase pronto para o seu segundo empreendimento gastronômico: um restaurante italiano. Mas o México é danado. Primeiro se impôs pelo mercado – “havia uma lacuna” –, depois, virou paixão. E, claro, um toque de mistério. “Conheci uma mexicana, Dona Antônia, que me adotou como filho e me ensinou quase tudo sobre a cozinha do seu país”. Em seguida, veio o belíssimo projeto de Márcia Meccia, Laura Kaufman e Thiago Tourinho, com adesivos de Naara. “É um mexicano diferente, bem contemporâneo”, define o chef. Assim como no Doc, o El Caballito tem sua versão combo, o Lucha Libre Mix (R$ 44, 90), com um pouco de tudo e tudo muito bom. Nas sobremesas, o destaque é o Churros com Dulce de Leche y Xocolate (R$ 9,90). E há ainda o diálogo com as cozinhas peruana e cubana, e as pimentas. “Temos aqui a bhut jolokia, a mais ardida do mundo na Tabela Scoville, mas o cliente só come se quiser”. Quem se habilita?
El Caballito Paulo VI, 1840. Terça a dom, das 18h às 1h (ter a qui), das 18h às 2h (sex e sáb) e das 18h às 0h (dom). Tel: 71 3506-3738
Aninha Franco
Com todos os problemas de comunicação, a Baía (miolo da Bahia), é uma nação onde em fevereiro tem Carnaval. Ainda que chova canivete e que mês de fevereiro não haja. Festa religiosa criada pelos gregos e apurada pelos romanos, o Carnaval foi aperfeiçoado pelo Brasil de tal maneira que, hoje, é seu melhor espetáculo. Em 1951, ano de boas safras, Dodô & Osmar puseram o trio elétrico nas ruas e permitiram que o Carnaval as percorresse, tapete musical, da Castro Alves ao São Pedro, com milhões de foliões voando atrás.
Os foliões eram operários, estudantes, intelectuais e artistas. As famílias assistiam em bancos amarrados aos postes, com farnéis de comer e beber. Entendi a chegada de um ovni quando vi a Caetanave subir a Ladeira da Montanha, iluminando a escuridão, emitindo sons, o frevo de Pernambuco e as trilhas de Gil e Caetano, com a constatação de que só os mortos não acompanhariam aquilo. Foi um momento de resistência vital à ditadura, nomeado pelo poeta Torquato Neto de Grande Zorra, e aqueles que interagiram com ele devem ter assistido aos anjos e à besta do após-calipso aderirem a Sodoma e Gomorra da escadaria do Palácio dos Esportes da Castro Alves.
A grande zorra esmaeceu com o início do fim da ditadura. Em 1986, quando o último militar – José Sarney – assumiu a república, Luiz Caldas e Gerônimo trouxeram outra música, sucessora da salsa, surgida, segundo Guido Araújo, em Porto Seguro, e espalhada pelo planeta. Professores de cursos pré-vestibular, Boulhosa, Nery, ensinaram os alunos a consumir o som nos clubes esvaziados, e bandas de rock colaram no novo som.
Em 1990, Camaleão e Chiclete com Banana saíram juntos com 2.500 foliões, 159 cordeiros, vistos pela imprensa como “lobos maus”, carro de apoio com um médico e duas enfermeiras. O acesso ao bloco exigia ficha limpa do folião e pagamento de cinco mil cruzados novos. Era um negócio da indústria cultural que poderia, organizado, produzir empregos para artistas, empresários, técnicos e pequenos negociantes. Precisava de um nome e de uma musa, como Nara foi da Bossa Nova e Gal do Tropicalismo. Eles virão na próxima Trilha.
Por trás da aparente calmaria, tempestades, vendavais e outros repentes do tempo no instável mundo da música. O clima, na “rotina sem rotina” de Gabriel Póvoas, 26, do nada pode fechar. Filho de Daniela Mercury e músico de sua banda, tem que estar preparado para mudanças nos roteiros dos shows e toda sorte de desafios que surgem nos bastidores das longas turnês que o levam a ficar o mês inteiro fora de casa, por exemplo. “Pego poucas matérias na faculdade”, diz Gabriel, aluno de composição e arranjo de música popular, na Escola de Música da Ufba. Bendita calma! Na hora H, tudo funciona. Ele é um desses caras multitalentosos. Desde os 13 anos, o pupilo de Aderbal Duarte toca vários instrumentos, canta, compõe e há alguns anos se revela como produtor e diretor musical. Na Canto da Cidade, produtora de Daniela Mercury, é ele quem administra o estúdio. Além da parceria com a Rainha do Axé, com quem assina trabalhos como Canibália (Sony, 2009), Gabriel se dedica à carreira da mulher, a cantora Thais Nader, e investe na própria trilha. Feliz com a formação da banda que leva seu nome, vem fazendo uma série de shows na capital paulista. O próximo será dia 31 de março, no Ao Vivo Music (Moema). A ideia é se concentrar em uma produção autoral apresentada em 2007 com Incompleto, seu primeiro álbum. Mas rejeita prazos. Perfeccionista, prefere caprichar na qualidade do trabalho. “A gravação é uma coisa eterna”.
Confira trecho do show Pandeirando, que reuniu Gabriel Póvoas e Emersom Taquari:









